|
- Filho ergue-te, que são horas. Já vem a romper o dia. Era a minha partida para o Brasil. Ia na companhia do senhor Gomes, estabelecido no Rio, que viera à terra e voltava. Já que o irmão lhe respondera em tempos daquela maneira, meu Pai tratou da vida por outro lado, e escreveu-lhe apenas a dizer que me mandava. E ficou assim combinado: o comerciante levava-me; se meu tio aparecesse e quisesse tomar conta de mim, muito bem; se não, empregava-me ele.
In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia
Meu Pai acompanhou-me ao comboio. Na Vila fomos primeiro a uma tasca comer uma malga de tripas cada um, e, a seguir, dirigimo-nos para a estação ao encontro do senhor Gomes, que apareceu mesmo à hora da partida. -Aqui lhe entrego o pequeno. Faça por ele o que puder, que eu , apesar de pobre, lho agradecerei um dia. E tu, já sabes: o mundo é dos homens! Sabia e não sabia, ao mesmo tempo. Mas fiz de conta que sim. E, para mostrar que ia cheio de ânimo, disposto a lutar e a vencer, subi para a carruagem como se nada fosse. Eu próprio estava admirado da minha serenidade, quer à despedida em casa, quer ali. Mas apenas o comboio se pôs em andamento, e meu Pai foi ficando cada vez mais longe, lavado em lágrimas na gare, cegaram-se-me subitamente os olhos e chorei desesperadamente.
In: A Criação do Mundo – O Primeiro Dia
|