Veiga Simões – Diplomata

 

I                                                                                         II Berlim, 14 de Setembro de 1938 ►

Berlim, 18 de Abril de 1938

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros

 

Excelência

 

Em Dezembro último, por um Inverno macio em demasia, Frau General Goering convidava as esposas de alguns dos diplomatas acreditados em Berlim, a visitar a sua residência em Karin Halle. Poucas se escusaram desse convite a oitenta quilómetros da branda temperatura de Berlim, para um chá numa planura desabrigada. O Monteiro-Mor do Reich acabara de transformar o pavilhão de caça que ali construíra três anos atrás, à beira do cenotáfio monumental da sua primeira consorte, numa instalação imperial de que se referiam maravilhas nos meios diplomáticos de Berlim. Trinta milhões de marcos haviam sido consumidos no seu conforto, nos mecanismos instalados no seu último andar, segundo os quais o Ministro do Ar, carregando em discretos botões eléctricos, assistia em miniatura ao bombardeamento aéreo de cidades, a caminhos-de-ferro estratégicos coleando linhas de defesa, a canhões anti-aéreos surpreendendo voos. Tapeçarias dos velhos palácios reais, parte dos famosos Lanczet e Pesne do “Palácio Novo” de Potsdam, os Cranach metaforicamente expostos na recente exposição do mestre quinhentista sob a rubrica de pertença à colecção pessoal do Ministro-Presidente, decoravam o pequeno palácio, de que o General quisera fazer, atrás de Frederico-o-Grande, o seu “Sans-Souci”, e de que se contavam, a meia voz, maravilhas – e anedotas.

Foi a Generala pressurosa em fazer conhecer a casa aos hóspedes; e seu marido quis excedê-la accionando os brinquedos guerreiros e desenrolando diante deles um combate aéreo em miniatura, com o requinte mesmo do bombardeamento duma gare ferroviária. Em certo salão do andar reservado às experiências bélicas, uma das senhoras diplomatas suspendeu uns instantes a vista ante uma carta da Alemanha enchendo toda uma parede. Nela, a Áustria estava já incorporada no Reich. Para o general, essa incorporação era já – fait accompli. Memel e Danzing, o corredor polaco e toda a província da Posnânia, a Silésia polaca, o Sleswing dinamarquês, os territórios belgas de Eupen e Malmedy, a Alsácia e a Lorena, certos cantões do norte da Suíça, figuravam nesse mapa cobertos de linhas paralelas, indicando campos de manobras próximas. Essa carta era verdadeiramente a do Raum e do Blut, do Quadro e do sangue, em que assenta o primarismo confortável da doutrina nazista. De todos os territórios em que o sangue alemão esteja reclamando anexação da terra ao grande Reich, apenas a Checoslováquia ficava indemne: ainda bem, porque a diplomata que se demorava em face dela era precisamente a esposa do meu colega desse país.

Vendo a leitura demorada que ela fazia do mapa, o General interveio:

-Felizmente, as senhoras diplomatas vieram hoje sós; porque se os maridos aqui estivessem, poderiam admirar-se um pouco da minha fantasia geográfica.

De então para cá, nenhum diplomata penetrou na Karin Halle; mas a carta programa do seu senhor e proprietário começou a executar-se.

 

Retirado do livro: “Alberto da Veiga Simões – Esboço Biográfico” de Lina Madeira, p.271

 

II Berlim, 14 de Setembro de 1938 ►

 

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